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Juca Chaves

Entrevista publicada em março de 2012 na Zona Norte.

"Eu sou mais músico, porque o humor sai naturalmente."

Quando a música encontra o bom humor, a arte fica ainda mais interessante. Em entrevista exclusiva consagrado artista revela detalhes do início de sua carreira e fala sobre seu show que está em cartaz em teatro carioca

O Correio Carioca conversou com um dos maiores artistas brasileiros, Juca Chaves, que fez diversas revelações, críticas a alguns humoristas e falou até de futebol. Sempre bem humorado, não faltou na conversa suas brincadeiras, como quando perguntado se estava com muito trabalho: “Quando a fila dos credores é maior que a fila do público a gente tem que trabalhar dobrado”. Mas a fila de público não parece pequena, pois sua temporada no Rio foi prolongada.

Correio Carioca: Como e quando começou a sua carreira?
Juca Chaves: Descobri na semana que passou um disco que tenho gravado na Rádio Nacional, em São Paulo, de um programa da orquestra sinfônica nacional. E isso foi no tempo em que se gravava discos um a um. Hoje estou completando 55 anos de prostituição artística. Fui apresentado na rádio assim: “O mais novo e promissor talento da música popular brasileira, Jurandir Chaves de 16 anos”. Fiz duas músicas que estouraram. Fiquei “o cara” naquele momento, agora sou o coroa. (risos) Um programa de TV q eu fiz foi nos anos 50, tupi de SP. Hoje o sucesso é pago, na rádio então, isso é aberto. Gravei um long play, com duas faces de satírico e romântico. Foi em 1954. Já em 1955 fiz a música Presidente Bossa Nova.

E mais tarde veio para o Rio?
Sim. Mais para a frente, vim para o Rio. Foi para lançar em 1978 duas sátiras ao Ricardo Amaral (grande empresário da noite). Presidente Bossa Nova foi a primeira sátira, feita para o Juscelino Kubitschek, e que tocou durante três anos.

Orquestra Sinfônica Nacional de uma rádio?
Sim. Antigamente tinha isso em todas as rádios. O país já foi musical, mas não é mais. E a Rádio nacional tinha a sua.

Você quando começou era diferente dos demais artistas?
Todo mundo via em mim algo diferente. Usava calças coloridas roupas assim, para chamar a atenção mesmo, fazia sonetos. Foi divertido. E quanto a bossa nova, os meus amigos eram quadradinhos, eram terninho e gravata, e eu andava de cavalo na Rua Augusta. Fui o primeiro a usar cabelo comprido, antes dos Beatles.  Eu me divertia, pois era muito garoto.

Em relação à política, você foi um crítico da ditadura.
Fui chamado de Menestrel da Liberdade. Quem me chamou a primeira vez assim foi o jornalista Flávio Alcaraz Gomes do jornal Zero Hora, de Porto Alegre. Foi o grande repórter da época, que cobriu inclusive algumas guerras.

Você foi um crítico do Regime Militar e em seu site faz uma crítica ao presidente Lula. Conte um pouco sobre.
Não recebi queixa de nenhum político da época, porque fazia crítica de maneira educada. Os próprios políticos iam nos shows e me cumprimentavam. Uma vez me falaram: “Tem um senhor ali fora q disse ser general”. Eu tremi. Quando fui falar com ele estava cheio de gente e ele falou assim: “Olha aqui ô garoto, mete o pau nesses políticos porque eles são muito burros!”.

E a política hoje?
Estamos numa ditadura disfarçada. Só um partido governa. Estamos perto da Venezuela, do meu tio Chaves. (risos) Alguns artistas são metidos a políticos. Um disse para mim que era político nato e eu perguntei se ele já tinha roubado e ele respondeu que não. “Então você não nasceu para ser político!”, disse eu.

Você teve que sair do Brasil por causa das críticas à política?
No Brasil eu saí porque sabia que poderia ser linchado a qualquer momento. Me falaram que alguns marinheiros ficaram insatisfeitos com algumas músicas críticas. Então fui para Portugal.  Não ia esperar ser linchado.

Lá fiz sucesso e os estudantes de Coimbra jogavam as suas capas no chão para eu passar, homenageando o Menestrel da Liberdade. Mas também fui mandado embora de Lisboa por incomodar o regime político. Então foi para a Itália.

No final do regime ditatorial eu voltei, mas antes me certifiquei sobre a minha liberdade. Aqui era uma ditadura muito mole, lá em Portugal era mais violento, jogavam os estudantes no rio. Mas tudo foi bom. Vão acontecendo as coisas e a gente vai compondo.

Você se considera mais humorista ou músico?
Mais músico, o humor sai naturalmente. Mas prefiro fazer um humor inteligente, sem muito palavrão. Hoje eles (humoristas) pensam q stand up ó só isso, mas não. É o chamado humor de TV. Eles morrem de rir deles mesmos. O humor é a ginástica da inteligência. Está ruim, mas pode piorar. (risos)

Teve algum ídolo ou inspirador?
No começo tinha o Dorival Caymmi, na minha fase praieira, depois Luiz Gonzaga, que ajudei a trazer de volta à rádio. Ele fez muito sucesso e depois quiseram jogar ele fora e eu trouxe de volta. Por essas coisas que depois fiz minha gravadora a Sdruws Records e eu dizia que era pirata mesmo. E aconselho os jovens a gravarem assim também. Vendo hoje no meu show 3 CDs por R$ 30,00, pois a caixinha tem 3 CDs. É por isso que eu digo “sou tri e daí” (risos).

Você está com uma temporada no Rio de Janeiro. Como está sendo?
Está bem. É no Teatro dos Grandes Atores. Que vai se chamar teatro dos pequenos atores, porque eu sou pequeno. (risos) O espetáculo foi prolongado.

Você vai se mudar para o Rio de Janeiro?
Sim. Gosto de mudar e quando vi já tinham passado 29 anos na Bahia. Não faço planos para longo tempo. Hoje para mim o Rio é novo. Na Bahia há um povo muito alegre e divertido. Mas meus amigos foram morrendo, como Jorge Amado e Calazans Neto. A Bahia foi piorando nesses últimos quatro anos.

Nos momentos de lazer, o que Juca Chaves gosta de fazer?
No passado gostava de carros e namorada. Casei muito cedo. Tinha 36 anos e a Iara era vivida, com 20. Ela tenta passar a mão em mim, mas eu sou difícil. (risos) Adotei duas meninas, na época tinham quatro meses. Hoje uma tem 13 e a outra 11. A de 13 está aprendendo Mandarim.  Uma chama-se Clara e a outra Maria Morena, a mais jovem. Como minhas filhas são negras eu disse que o muro era baixo e o vizinho era alto (risos).

E o futebol? E o seu São Paulo?
Sou são paulino, tricolor do Morumbi! Não podemos reclamar da vida é o único clube do Brasil que pode vestir um uniforme todo branco que já vem cheio de estrelinhas (títulos). É o time que tem mais vitória.

Vamos esperar o que vai acontecer na copa. Uma final entre a Costa do Marfim e a Coreia do Norte seria gozado.

Mas deveria ter uma lei que impedisse que um homem q exerça uma função no futebol se candidate politicamente, pois ele estará ganhando votos sem merecer.

Alguma mensagem para o leitor do jornal?
Arruma um patrocinador que eu posso chegar até aos 90 anos feliz e sorridente! Estou precisando de patrocínio de pessoas sensíveis.

Se nós ganharmos na loteria patrocinaremos você e seu São Paulo.
E se eu ganhar eu pego o primeiro bonde e vou pra Paris (risos).



O espetáculo do Juca Chaves foi prorrogado até 1º de Abril (é verdade) nos mesmos horários.

Sexta e sábados 21h e domingos 20h. Sextas e domingos R$70,00 e sábados R$80,00.




 
 
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